Da Periferia ao Centro: tempo e qualidade de vida

Assista o vídeo da reportagem aqui.
Para quem chega ao Viaduto Otávio Rocha às 6 horas, há quatro opções de ônibus para se dirigir ao terminal da Restinga Nova: M10, 210, 209 e o Rápida 10. O último, descobrimos, é rápido porque faz um número menor de paradas e, por isso, nos possibilitaria uma ida à Restinga sem maiores transtornos e um ambiente melhor para as filmagem e entrevistas da volta. Ao todo, as linhas que fazem o trajeto Restinga/Centro e Centro/Restinga, (incluindo Restinga Nova e Restinga Velha) em dias úteis, são 12, e fazem um total de 622 viagens, sendo 318 do bairro para o centro, e 304 do centro para o bairro.

Rota da linha R10 — Aplicativo Moovit

Nós escolhemos o bairro pelas características históricas da Restinga, criada para receber populações pobres que habitavam o antigo bairro Ilhota, hoje conhecido como Cidade Baixa. Eram pessoas que o poder público queria que ficassem o mais afastadas do centro da cidade quanto fosse possível. Segundo o último censo do IBGE, a região da Restinga tem 4,31% da população do Município, com mais de 60 mil habitantes. A taxa de analfabetismo é de 4,03% e o rendimento médio por domicílio era de 2,10 salários mínimos (2010). Ao mesmo tempo, e a região é, historicamente, um importante território negro para a cidade.

Logo no início do trajeto, conhecemos Letícia Ferreira, de 40 anos. O ônibus estava lotado e ela cansada. Precisava pagar algumas contas de lojas que ficam localizadas no centro. “Quando eu saio do bairro ao centro, acho bem tranquilo. Mas do centro ao bairro é sempre horrível.” Ela explica que, por ser dona de casa, normalmente consegue evitar os horários de pico. Mesmo assim, diz que já precisou esperar um segundo ônibus para conseguir ir para casa. O primeiro chegou depois de 20 minutos, mas veio lotado e não parou. As histórias sobre violência dentro do ônibus são corriqueiras, conta ainda Letícia. Ela confessa que sente medo, mas que não é um sentimento exclusivo de dentro do transporte público.

“A gente sente medo em qualquer situação, tanto fora do ônibus quanto dentro”. Letícia Ferreira, 40 anos.

Emily Borges, 22 anos, estudante de Relações Públicas, precisa sair da região central da Restinga todos os dias para ir até a faculdade, mas o que a motivou a realizar o trajeto hoje foi a festa à fantasia que os amigos a convidaram. Ela cita que gostaria de opções com mais variedade de produtos e preços baixos perto de casa porque teria mais tempo para estudar. “Normalmente as pessoas levam 15 minutos dentro de um ônibus. Eu levo 15 minutos só pra conseguir sair da Restinga, e depois tem o percurso até o centro, que tu pode encontrar acidente, sinaleira apagada.” Emily também não se sente segura, mas atribui isso também ao preconceito. “É involuntário da nossa parte ficar com medo quando entra no ônibus pessoas com determinadas características. Mas como a gente vive em uma sociedade que a gente sabe que a cada minuto alguém conhecido acaba sendo assaltado ou sofre algum tipo de violência, criamos jeitos de nos defender, como com os preconceitos”, ela explica. Novamente, o sentimento de medo parece generalizado e não exclusivo ao transporte, sendo capaz de fortalecer as lógicas das relações sociais que afastam ao invés de aproximar.

“Entrou um menino de moletom e boné. Infelizmente, tu vai se sentir ameaçada, entendeu?” Emily Borges, 22 anos.

Os assédios e a violência contra a mulher também estão cada vez mais presentes no transporte público. Cristiane Machado, 31 anos, estava indo trabalhar quando presenciou o caso de um homem que ejaculou em cima de uma menina. “Ela estava com uniforme escolar, foi horrível. O ônibus parou porque as pessoas começaram a gritar, mas o motorista e o cobrador não conseguiram ver o que tinha acontecido, porque o ônibus estava muito cheio, e acabaram abrindo a porta. Aí o cara fugiu”, conta.

Escute o podcast aqui.

Presenciamos a dificuldade da linha Rápida 10 quando, em determinado momento, tivemos que descer e nos perdemos no caminho. Com o número menor de paradas, não é tão simples saber, dentro da Restinga, onde é possível subir novamente no ônibus. Ao conseguirmos chegar até o terminal Restinga Nova, vimos as ruas do entorno com muitos buracos e, com a chuva forte, não foi difícil se molhar mesmo embaixo da cobertura do terminal. Apesar disso, a organização do terminal parecia funcionar e, às 8:30h, tudo ocorria normalmente, sem grandes aglomerações de filas.

As pessoas com quem conversamos não conseguiram nos apontar possíveis soluções ou propostas para a diminuição do tempo perdido com o trajeto e o consequente aumento da qualidade de vida de quem precisa de serviços básicos que, muitas vezes, só são encontrados no centro. O percurso do terminal da Restinga Nova até o centro leva em torno de 1 hora e meia (no Rápida 10) e várias ruas do bairro são irregulares, mas o processo já está naturalizado como necessário. Entretanto, passamos a compreender que a Restinga, pelas mesmas características que a fez ser o bairro escolhido para a reportagem, é bastante autônoma se comparada à outros bairros periféricos de Porto Alegre.

A infraestrutura da Restinga divide opiniões

“Tem camelódromo, tem lotérica. A gente nem precisa do centro pra fazer as coisas. Tem tudo lá”, comenta Bruno dos Santos, 27 anos, estudante de administração. Ele mora na Restinga Nova há 4 anos e está indo ao centro para trabalhar e estudar.

Cristiane Machado fala algo parecido: “Por mim eu não sairia da Restinga pra fazer nada, tanto que eu conheço bem pouco Porto Alegre. Morar na Restinga é algo tão complexo que te deixa apaixonada pela comunidade”. Ela comenta a importância de incentivar a criação de espaços culturais locais e como a educação e a cultura são pontos de escape para as dificuldades enfrentadas pela juventude moradora da Restinga.

Por outro lado, a Associação de Moradores da Vila Restinga (Amovir) vê a região como um bairro dormitório e explica que é preciso ser realista para que seja possível exigir melhorias do poder público. A presidente da Associação, Nidia de Albuquerque, argumenta também que os ônibus que fazem os trajetos para bairros nobres, como o Auxiliadora, estão em condições muito melhores, com estofamento e ar condicionado funcionando. “Parece que o nosso dinheiro tem diferença”, desabafa.

“Nós estamos à deriva, porque a gente não tem conforto nenhum para se transportar. Andamos igual lata de sardinha e os preços são muito altos.” Presidente da Amovir, Nidia de Albuquerque.

Cássia Castro, 32 anos, advogada, comenta ainda que “apesar da Restinga ter muitas coisas, a oferta de emprego para quem tem um superior completo ou estágio para quem está cursando, ainda é quase inexistente”. A quantidade de comércio autônomo, de fato, é o que chama mais atenção para quem visita a Restinga pela primeira vez. “Escolas a Restinga tem bastante, o problema é a segurança. Então quem tem um pouco mais de condições financeiras, vai estudar fora do bairro”, ela acrescenta.

Quando perguntamos à Associação de Moradores sobre como melhorar o transporte, eles apontaram: “Mais ônibus, mais horários intermediários, e também uma boa educação dos motoristas e cobradores. Uns cursos de aperfeiçoamento, com acompanhamento. A gente já tem o disque 156 para fazer denúncia, mas aquilo ali é uma coisa tão automatizada, tu faz e fica por isso mesmo, ninguém vê resultado”. Também falamos sobre a relação da Associação com a Prefeitura, que, segundo Nidia, enfraqueceu nos últimos tempos. “Nós tínhamos aqui a Comissão de Transporte. Agora, com a nova gestão da Prefeitura, não existe mais, porque ele [Marchezan Jr] é uma pessoa muito imediatista e não quer se reunir para discutir. Antes, o conselho ia até a EPTC com as nossas críticas e sugestões de encaminhamento. Agora não tem nenhum caminho para recorrer. Se a gente vai como pessoa física, não somos atendidos”, Nidia explica.

*Até o encerramento da reportagem (20/10/17), nem a EPTC nem a Secretaria Municipal de Urbanismo haviam respondido nossas dúvidas sobre as críticas divulgadas aqui.

Qual é a solução para o sucateamento das periferias?

O coletivo A Cidade que Queremos responde e traz novos apontamentos para a discussão nesta entrevista ping-pong.

Durante nossa apuração para falarmos sobre o trajeto da Restinga ao Centro, conversamos com um morador do bairro Bom Jesus e integrante do coletivo A Cidade que Queremos. Ele abordou possíveis alternativas para que a organização desigual das cidades desenvolva novas características através da participação popular, mas garantiu que o caminho é longo. O coletivo é formado por diversas associações e movimentos sociais de Porto Alegre.

Foto: Cristiane Moreira.

De quais formas o coletivo enxerga a construção de uma cidade melhor?

Hoje, parte do que chamamos de organização do trabalhador é aquela que se dá no local de moradia de cada um: a luta comunitária. O principal empecilho para ela é que os movimentos sociais costumam reivindicar apenas caminhos imediatos. Resolver o problema do esgoto entupido, da falta de iluminação em uma rua. Tudo isso é importante, mas não podemos esquecer de discutir o que causa a exclusão das periferias. O dia a dia e as demandas da realidade são necessários e a gente precisa sim envolver as comunidades nisso, mas também é necessario fazer uma lincagem com as consequências do modelo de cidade que temos. Do contrario, não renovamos a militância.

Quais são essas consequências que tu citou? Como isso pode ser observado no cotidiano das periferias?

As cidades são organizadas apenas para responder suas questões econômicas. Onde é possível ter um retorno econômico maior, é onde os investimentos em infraestrutura vão ser feitos. Nas periferias, é a desassistência. O posto de saúde que fica funcionando semanas e semanas sem médico, as escolas que ficam sem professores o semestre inteiro porque não tem ninguém pra repor. Isso acontece porque muito dessas desigualdades das cidades estão ligadas a um tipo de gestão da máquina pública. O que poderia e deveria acontecer é a população mais desassistida ser prioridade e nós temos uma inversão disso. O <a class="markup–anchor markup–p-anchor" href="https://www.sul21.com.br/jornal/populacao-em-situacao-de-rua-denuncia-sucateamento-da-assistencia-social-em-porto-alegre/&quot; data-href="https://www.sul21.com.br/jornal/populacao-em-situacao-de-rua-denuncia-sucateamento-da-assistencia-social-em-porto-alegre/&quot; rel="nofollow noopener noreferrer" target="_blank" style="background-color: transparent; color: inherit; text-decoration: none; -webkit-tap-highlight-color: rgba(0, 0, 0, 0.54); background-repeat: repeat-x; background-image: url(" data:image svg+xml;utf8, “); background-size: 1px 1px; background-position: 0px calc(1em + 1px);”>sucateamento da Fasc é um exemplo disso.

Qual é o nível de aderência da população aos debates realizados pelo coletivo A Cidade que Queremos, abertos ao público? Eles são efetivos?

Nós vivemos um esvaziamento da ação comunitária popular. As pessoas estão frustradas com a política e acham que nada vai resolver a situação. Durante esse processo, é muito difícil de fazer as pessoas se engajarem nesse tipo de movimento. Isso precisa ser revertido, porque associado a nossa conjuntura geral do país, no qual nada nos representa, o espaço de mobilização se torna mais necessário, sem soluções superficiais.

Dentro deste contexto atual, como vocês estão atuando?

Estamos diversificando nossas abordagens, saindo um pouco das assembleias e dos debates acadêmicos e indo para as feiras orgânicas, feiras de economia solidária, conversando com as pessoas e ampliando o diálogo. A população que a gente consegue alcançar está aceitando desenvolver o pensamento crítico e se juntar para pensar em soluções.

E quanto ao transporte público e o acesso da população periférica aos centro das cidades? Como vocês buscam atuar nessa demanda mais específica?

O transporte público vai ser mais acessível na medida em que for mais descentralizado. Por que fazer um itinerário que faz um caminho por dentro de várias vilas? Para que as pessoas não precisem ir até o centro e pegar dois ônibus para um local que poderia ter um trajeto com a metade do tempo. Se tivéssemos roteiros alternativos e um número de linhas maior de ônibus circulares, para alimentar uma comunidade à outra, a acessibilidade aumentaria.

Qual é a perspectiva de melhoria para os próximos meses?

O movimento atual da gestão da Prefeitura está sendo o de reduzir os trajetos dos ônibus, substituindo algumas linhas por ônibus alimentadores, que só passam em ruas principais e terminais. Estamos em um processo de inibir o uso do transporte público, dando vários passos para trás. As viagens que 20 minutos vão passar a ter uma hora. Antigamente, nós tínhamos comunidades aqui perto que, para pegar um ônibus, as pessoas tinham que caminhar um quilômetro e meio de barro. A pavimentaçao das ruas também é uma reivindicação ainda bastante importante. Muita coisa melhorou, mas parece que estamos regredindo.

Esse texto foi produzido na cadeira de Jornalismo Digital, ministrada pela professora Vanessa Hauser. O texto faz parte do projeto do semestre, Doze 34, com o qual vencemos o Prêmio Ari 2017, na categoria Web Jornalismo Universitário.

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